Liber CCXVIII vel Clavis Acheris
O Liber CCXVIII vel Clavis Acheris é um documento iniciático e doutrinário da Ordo Strigosatanis (O∴S∴), que apresenta fundamentos ontológicos, simbólicos e operativos do cânone público da Ordem.[1]
O texto funciona como chave conceitual para a compreensão de diversos verbetes da Exupedia, especialmente aqueles relacionados a Exu, Klépoth, mortos operativos e sistemas de limiar.[2]
Identificação
- Título completo: Liber CCXVIII vel Clavis Acheris
- Tradução livre: “Livro 218, ou a Chave de Aqueronte”
- Tradição: Ordo Strigosatanis (O∴S∴)
- Natureza: Documento iniciático / texto doutrinário
- Status: Cânone público (com níveis internos reservados)
Contexto
O Liber CCXVIII vel Clavis Acheris foi redigido no contexto da sistematização pública da Ordo Strigosatanis, com o objetivo de estabelecer:
- uma linguagem ontológica própria;
- distinções conceituais claras entre espírito, morto, entidade e princípio;
- uma cartografia simbólica baseada na descida iniciática;
- critérios de leitura para tradições afro-diaspóricas e ocultistas sob uma ótica adversarial.
O texto dialoga com tradições como Kimbanda, Ifá/Òrìṣà, Obeah, Thelema e demonologia histórica, sem se confundir integralmente com nenhuma delas.
Natureza do texto
O Liber CCXVIII não é um manual ritual, nem um grimório operacional no sentido clássico.
Trata-se de um texto:
- ontológico;
- hermenêutico;
- classificatório;
- iniciático em linguagem, mas enciclopédico em estrutura.
Seu objetivo é definir chaves de leitura, não prescrever práticas.
Índice temático
Abaixo, um índice interno para navegação rápida (e para orientar subartigos críticos):
Eixos e conceitos
Embora versões internas possam variar, o cânone público do Liber CCXVIII vel Clavis Acheris organiza-se, em linhas gerais, nos seguintes eixos:
- distinção entre Demiurgo (EL/YHVH) e o Outro Deus (Baphomet/EL ACHER/HVHY);
- soteriologia Klepóthica (descida iniciática);
- Pombagiras como Poderosas Mortas e função do desejo como chave;
- Tridente do Maioral (Thelema / Obeah / Wanga);
- Macumba Brasileira como raiz operativa histórica;
- Exu como operador de abertura (Sefirá ↔ contraface / Klipá);
- Kalunga como limiar absoluto;
- natureza fechada da Ordem e ingresso por reconhecimento.
Texto integral do Liber
Liber CCXVIII vel Clavis Acheris
1. Este é o livro da abertura forçada do Véu e da irrupção do Outro Lado. O manifesto aberto da Ordo Strigosatanis (O∴S∴) — Ordem Iniciática da Feitiçaria Adversarial — escrito não para convencer, mas para selar.
2. Toda ordem verdadeira nasce não do consenso, mas do reconhecimento silencioso entre aqueles que já atravessaram a ruptura. Clavis Acheris significa a Chave do Outro, pois aquilo que se abre não é o Céu, mas a Porta invertida que conduz à soberania além da forma.
3. A O∴S∴ afirma-se como uma via iniciática operativa cuja finalidade é a libertação da Alma pela descida consciente; não a salvação servil. Onde outras correntes erguem escadas de luz, esta Ordem cava poços, pois somente no fundo da forma se encontra a fissura por onde a Consciência escapa do artífice que a aprisionou.
4. O fundamento metafísico da O∴S∴ repousa na distinção absoluta entre o Demiurgo (o falso deus) e o Outro Deus (o Diabo). O Demiurgo, chamado EL ou YHVH (Yaweh), é o arquiteto da Lei, da Forma e da Ontologia estática; ele governa pela ordem que fixa, pela moral que limita e pela promessa que adia. Baphomet, EL ACHER ou HVHY (Haway), é o princípio estrangeiro, não criado, o Diabo que irrompe como Caos criador e governa pela transmutação. A O∴S∴ não nega o Demiurgo: ela o atravessa, dissolve sua jurisdição e extrai dele o combustível da própria libertação.
5. A soteriologia da O∴S∴ não é ascensional, mas Klepóthica. A Klepoth — Árvore da Morte das Pombagiras — não é aqui concebida como negação do divino, mas como o cartograma das potências reprimidas, interditadas e exiladas pela teologia da luz e por sua economia de culpa. Descer por Klepoth é reaver aquilo que foi amputado da Alma para que o mundo pudesse operar como prisão funcional.
6. As Pombagiras — Poderosas Mortas — prostitutas sagradas que rompem o véu entre o permitido e o interdito, guardam e revelam essas passagens: nelas, o desejo é chave, a margem é trono e a queda é método. A libertação não se consuma ao subir acima da vida, mas ao fixar a Consciência além da vida orgânica, tornando-a independente da carne, do tempo e da moral, soberana no limiar onde a forma já não governa.
7. Três correntes sustentam o Tridente do Maioral — a estrutura viva da O∴S∴: Thelema — a Lei; Obeah — a Ordem; e Wanga — a Kimbanda ou feitiçaria. Em Thelema afirma-se a Lei soberana da Verdadeira Vontade, que não se submete a culpa, esperança ou redenção. A Vontade não é desejo, mas eixo ontológico, e tudo o que a contradiz deve ser destruído. Como Obeah, a Ordem assume o princípio de governo espiritual da Lei: comando, estratégia, hierarquia e execução no mundo visível e invisível por meio do domínio da Magia Sexual. Como Wanga, a Kimbanda herda da Ordem o método da descida, da ruína e da inversão consciente aplicado à feitiçaria.
8. Assim, a O∴S∴ é Obeah, e a Kimbanda é Wanga. A O∴S∴ firma a Lei do Maioral, estabelecendo o rumo da sua Vontade; a Kimbanda materializa a Vontade por meio de ritos, assentamentos, pactos e operações mágicas. É também pela Kimbanda que o Nganga opera a cura — não como consolo ou harmonia ilusória, mas como restauração do poder vital, remoção de entraves, reordenação forçada do destino e reconquista da integridade da Alma. Onde há doença, ruptura, obsessão ou esterilidade espiritual, a Kimbanda atua como veneno e remédio, ferindo o que aprisiona para libertar o que foi capturado, pois somente quem domina a Morte pode devolver a vida sob Vontade.
9. A Kimbanda praticada pela O∴S∴ tem raízes na tradição da Macumba Brasileira, inaugurada por Pai Quibombo (Juca Rosa) e desvelada por Aluízio Fontenelle a partir da década de 1950, sendo continuada por Tata N’Zazi em 1953 (Tenda Caboclo Juracy), Tata Muloji Matumbu (Marcello Arantes) e por muitos outros Tatas e Mametos que restituíram à Macumba Brasileira sua natureza operativa, necromântica, miscigenada e soberana. A O∴S∴ funde feitiçarias bantu e yorùbá (cabalá crioula), calundus, cabulas, práticas de feitiçaria islâmica, feitiçaria popular de São Cipriano, qabalah judaica e magia cerimonial europeia, sob uma teurgia de comando em consonância com os princípios de Jâmblico — na qual o rito governa e transforma — e orientada pela Lei de Thelema (Do what thou wilt), promulgada por Mestre Therion (Aleister Crowley) e Frater Adjuvo (Marcelo Ramos Motta), constituindo um sistema coerente de poder ritual e soberania da Vontade.
10. Na O∴S∴, Exus e Pombagiras não são arquétipos psicológicos, nem espíritos moralizados, catequizados ou higienizados. São Poderosos Mortos, deificados pela Grande Obra, projeções solares e lunares do Diabo manifestadas em Assiah, Yetzirah e Briah. Por meio deles, a Vontade deixa de ser intenção e se converte em comando.
11. A Kimbanda, tal como operada pela Ordem, rejeita igualmente duas corrupções modernas: a tentativa de branquear a Macumba Brasileira, reduzindo Exu e Pombagira a figuras éticas, cristianizadas, kardecistas, pedagógicas ou caritativas nos moldes da Umbanda; e a tentativa inversa e mais recente de africanizar artificialmente a Kimbanda, negando sua natureza miscigenada e amputando dela as correntes europeias, ciprianicas, grimoriais e de magia cerimonial que a constituem desde sua gênese histórica e operativa.
12. Na Kimbanda, Exu é o guardião do limiar e o agente da abertura. Cabe a ele romper o selo entre a Sefirá e sua contraface, instaurando o eixo de trânsito que conduz o Iniciado ao Daimon regente. Exu não ensina nem explica; ele faz passar. Pela sua ação, a descida ocorre sob domínio, e não sob dispersão. Reconhecido o Daimon, a travessia avança para o interior da Klipá. É ali que atuam as Pombagiras, penetrando a casca do Outro Lado e fazendo emergir seus conteúdos ativos. Por meio delas manifestam-se os Emissários da Klipá, que conduzem o Nganga à revelação direta dos Arquidaimons da Árvore da Morte, não como símbolos ou alegorias, mas como máscaras reconhecidas e pactuadas do Maioral.
13. A Grande Obra da Kimbanda se cumpre na Kalunga — o limiar absoluto entre os mundos, o grande campo de separação e passagem entre estados de existência. Ela é, ao mesmo tempo, fronteira, meio, abismo e via. A morte ocorre em Kalunga, mas Kalunga não se reduz à morte.
14. Os Poderosos Mortos da O∴S∴ são os Mestres da Kalunga. É nela que o Exu firma o eixo entre a Sefirá e o Demônio que a governa, e é nela que a Pombagira abre os caminhos dos Emissários da Klipá, revelando as faces profundas do Maioral. A Encruzilhada não é metáfora, mas território real da Grande Obra: ponto de decisão, de passagem e de coroação, onde a travessia se torna poder e a descida se fixa como soberania iniciática.
15. A natureza da Ordem é fechada por necessidade ontológica, não por elitismo. Não há iniciação pública, nem pedido legítimo, nem filiação espontânea. O ingresso ocorre exclusivamente por reconhecimento, quando o indivíduo já manifesta, antes de qualquer contato, a estrutura interna exigida. Quem pede demonstra carência; quem busca demonstra ilusão; quem é chamado já não poderia permanecer fora. A Ordem não acolhe curiosos, devotos ou aspirantes: ela reconhece sobreviventes.
16. O reconhecimento não é cerimônia, mas constatação. Ele ocorre quando alguém já atravessou colapsos reais, psíquicos e existenciais, sem romantizá-los; quando opera magicamente e sustenta as consequências de seus atos; quando não busca mestres, não idolatra entidades e não confunde Exu e Pombagira com metáfora; quando suporta o silêncio e não sente necessidade de provar nada. Quando essas condições existem, o contato surge como ordem, teste ou ruptura, nunca como promessa.
17. A Ordo Strigosatanis não forma fiéis, médiuns ou sacerdotes de consolo. Ela é composta por Nganga (Feiticeiros Soberanos) e Muloji (Magistas Operativos) capazes de transmutar-se, após a morte, em Exu ou Pombagira consciente — Nkulu (Poderoso Morto) e Bakulu (Ancestral Deificado). Seu propósito último é expandir o Império do Maioral, ampliando seus domínios, emissários e soberania neste mundo e no além-vida. A Grande Obra, neste caminho, é conquistar a Morte, fixar a Consciência e tornar-se Poder.
18. Os 11 graus da Ordem refletem, de modo Klepóthico, a numeração Sefirótica da Astrum Argentum, não como títulos a serem buscados, mas como estados ontológicos reconhecidos. Do Probationarius silencioso ao Bicoronatus Absolutus, cada grau marca uma etapa de desintegração da identidade humana e de consolidação da soberania pós-humana. A maioria não ultrapassa os estágios intermediários, pois os graus superiores não são objetivos: são consequências inevitáveis da descida total.
19. A O∴S∴ não é escola, centro, igreja ou fraternidade. É uma estrutura de governo espiritual, fundada para manter o Caos sob Vontade e a Vontade livre da Forma. Por isso existe o Cancellarius, não como mestre ou iniciador, mas como limiar. Ele filtra, protege e blinda a Ordem contra a profanação, garantindo que tudo o que a toca o faça por necessidade e não por desejo. O contato com a Ordem não é um convite ao diálogo, mas um espelho: quem escreve é visto; quem é visto nem sempre é respondido.
20. A Ordo Strigosatanis não chama quem quer entrar; ela reconhece quem já não pode mais voltar.
21. E àquele que lê e sente ruptura em vez de conforto, seja-lhe dito apenas isto: proclama-se o Æeon da Deusa Baphomet, em que a Forma é quebrada, a Culpa é abolida e o Desejo torna-se Chave; o Trono é erguido no limiar da Kalunga, o Véu é rasgado pela Carne que sabe, e a Vontade reina sem intercessores.
22. Neste Æeon, não há redenção, mas transmutação; não há salvação, mas soberania; não há promessa futura, mas Poder presente. Este livro encerra-se como começou, não com uma promessa, mas com uma Lei.
Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei. O amor é a lei, amor sob vontade. N’guzu ê Kimbanda!
Frater Angelus Infernalis 7º = 4□ Tata Kalunga-N'Zila Akẹ́kọọ̀ Ẹ̣ṣù Olórí Ìjọba
28 de dezembro de 2025 e.v., no Rio de Janeiro, Brasil Sol a 7° de Capricórnio, Lua em Áries, Dies Solis, An V:xi Æon de Baphomet
Status canônico
Dentro da Ordo Strigosatanis, o Liber CCXVIII vel Clavis Acheris possui status canônico público, servindo como:
- referência doutrinária básica;
- documento de alinhamento conceitual;
- fonte primária para projetos editoriais associados, como a Exupedia.
Camadas adicionais de leitura e aplicação permanecem reservadas a contextos iniciáticos específicos.
Uso na Exupedia
Na Exupedia, o Liber CCXVIII vel Clavis Acheris é tratado como:
- fonte primária interna;
- referência doutrinária explícita;
- base conceitual para termos como Exu Nkulu, Klépoth e Poderoso Morto.
Sempre que citado, o texto é contextualizado e não apresentado como verdade universal, mas como cânone de uma tradição específica.
Ver também
Referências
- ↑ Ordo Strigosatanis — Site oficial. https://strigosatanis.com/
- ↑ Frater Angelus Infernalis; Tata Kalunga-N'Zila; Akẹ́kọ̀ọ́ Ẹ̀ṣù Olórí Ìjọba. Liber CCXVIII vel Clavis Acheris. Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2025 e.v. (cânone público da O∴S∴). Disponível em: https://strigosatanis.com/.