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Exu

De Exupedia

Exu é um dos conceitos mais complexos, centrais e frequentemente mal compreendidos das religiões afro-diaspóricas e dos sistemas ocultistas de matriz africana no Brasil. O termo designa realidades distintas conforme o contexto: pode referir-se a um Òrìṣà fundamental do sistema yorùbá (Èṣù), a entidades espirituais conhecidas como Exus (na Umbanda e, sobretudo, na Kimbanda), ou ainda a uma categoria ontológica específica em sistemas iniciáticos contemporâneos.

A Exupedia adota uma abordagem comparativa, histórica e ontológica, distinguindo claramente essas camadas conceituais.

Exu

Imagem de referência de Exu

Campo Descrição
Natureza Entidade espiritual / princípio cosmológico (varia por tradição)
Domínios Encruzilhada, passagem, comunicação, decisão, abertura de caminhos
Sistemas Ifá/Òrìṣà · Umbanda · Kimbanda · Ontologia O∴S∴
Categoria O∴S∴ Poderoso Morto (Nkulu), operador liminar e agente de abertura da Klipá
Termos relacionados Pombagira · Kimbanda · Ifá · Kalunga · Encruzilhada · Daemon · Klépoth

Definição geral

De forma ampla, Exu é uma entidade ou princípio liminar, associado à comunicação entre domínios, à circulação de forças, à abertura de caminhos e à mediação entre ordens distintas da realidade. Não é uma figura moral no sentido cristão, nem um “demônio” no sentido teológico europeu, embora tenha sido frequentemente demonizado por leituras coloniais.

A depender da tradição:

Polaridade: Exu (solar/masculino) e Pombagira (lunar/feminino)

Em grande parte da literatura e da prática afro-brasileira (especialmente em vertentes de Umbanda e Kimbanda), estabelece-se uma distinção operacional e simbólica:

  • Exu — polo masculino e solar;
  • Pombagira — polo feminino e lunar, frequentemente chamada de “Exu Mulher”.

Trata-se de uma classificação simbólica e operativa, utilizada para organizar funções rituais, e não de distinção biológica ou moral.

Distinção fundamental: Èṣù Òrìṣà ≠ Exu Nkulu

Uma distinção essencial é entre Èṣù, o Òrìṣà do sistema yorùbá, e o conceito de Exu Nkulu, cuja origem se encontra na Cosmologia Bantu-Kikongo e na classificação kikongo dos mortos operativos.

Enquanto Èṣù é um Òrìṣà primordial, princípio cosmológico não humano e anterior à morte, o Exu Nkulu deriva da categoria bantu de Nkulu (Poderoso Morto), isto é, um espírito humano pós-morte que alcançou estatuto soberano, capacidade de governo e função operativa. Nas tradições afro-brasileiras — especialmente na Kimbanda — esse fundamento bantu-kikongo foi reinterpretado, ritualizado e nomeado como Exu.

Exu Nkulu (Poderoso Morto)

Na Cosmologia Bantu-Kikongo e, por derivação histórica, nas tradições afro-brasileiras como a Kimbanda e na ontologia da O∴S∴, Exu é compreendido como um Nkulu (Poderoso Morto): um espírito humano que, após a morte, foi reconhecido e estabilizado por obra iniciática, adquirindo identidade ritual, função cosmológica e capacidade operativa.

No vocabulário ontológico adotado pela Exupedia, o termo “Poderoso Morto” aplica-se exclusivamente aos mortos que atingiram o nível de Nkulu ou superior. Estados anteriores da condição pós-morte — ainda que espiritualmente ativos — não são classificados como Poderosos Mortos.

No fundamento Kikongo, Nkulu não é sinônimo genérico de “morto”, mas um nível ontológico específico dentro de uma classificação mais ampla de estados e funções pós-morte. O Nkulu é, de forma precisa, aquele que rompeu o ciclo das reencarnações físicas (kuzinga kabutuka), isto é, o retorno compulsório à existência corporal.

Enquanto mortos não estabilizados permanecem sujeitos ao kuzinga kabutuka (ciclo de nascer, morrer e retornar à matéria), o Nkulu venceu esse ciclo e fixou-se em um estado de existência soberana e permanente, denominado kuzinga ya mvula (vida durável) ou kuzinga mu mpemba (existência estabilizada no estado branco). Por essa razão, o Nkulu não reencarna, não retorna à carne e não está submetido à compulsão do nascimento físico.

A seguir apresenta-se a classificação ontológica Bantu-Kikongo dos estados pós-morte adotada pela Exupedia, organizada segundo grau de estabilidade, soberania e relação com o ciclo reencarnatório.

Classificação Bantu-Kikongo dos estados pós-morte
Nível Termo (Kikongo) Nome adotado Condição ontológica Relação com o kuzinga kabutuka Função ritual
1 Mvumbi Morto recente Resíduo pós-morte colado ao cadáver; consciência fragmentada Submetido ao ciclo Nenhuma (estado bruto)
2 Kiumba Morto desordenado Espírito corrompido ou desviado; instável Submetido ao ciclo Nenhuma / risco ritual
3 Muntu wa kufwa mambu Morto Novo Separado do corpo, identidade ainda ativa Submetido ao ciclo Instável; zona de decisão
4 Muntu wa kufwa kala Morto Velho Identidade mais estável, menos emocional Submetido ao ciclo Base para ritualização
5 Muntu wa kufwa ngolo Morto Potente Potência operativa latente Submetido ao ciclo Potencial de assentamento
6 Muntu wa kufwa dikanda Egún Morto disciplinado e assentado Submetido ao ciclo Executor ritual / falange
7 Muntu wa kufwa dikanda wa ntinu Egún Capataz Comando intermediário Submetido ao ciclo Chefia de sub-falange de Egún em nome de Nkulu
8 Nkulu Exu / Pombagira (Poderoso Morto) Consciência soberana e estabilizada Ciclo rompido Governo, abertura e comando de falange
9 Bankulu (conjunto de Nkulu) Banda (Egrégora) Autoridades pós-morte preservando individualidade Coordenação de seção do Ciclo Conselho e soberania coletiva
10 Kulu Cabeça de Egrégora Comando superior entre Bankulu Chefia do de seção do Ciclo Coordenação de falanges
11 Bakulu Ancestralidade total Dissolução da individualidade Governo do Ciclo Alma do Mundo / Maioral

Assim, quando este verbete utiliza a expressão “Exu Nkulu”, refere-se estritamente ao nível soberano e governante do morto operativo, que quebrou o ciclo das reencarnações físicas (kuzinga kabutuka), distinguindo-se de estados instáveis (como Mvumbi e Kiumba) e de funções subordinadas ou executoras (como Egún e Egún Capataz).

História do termo “Exu” no Brasil

Em termos históricos, a presença e o sentido do termo “Exu” no Brasil resultam de um processo de camadas e sincretismos internos entre matrizes africanas (com forte peso centro-africano/bantu) e, posteriormente, aportes yorùbá/nagô — além de reinterpretações urbanas e intelectuais no século XX.[1][2]

1) Base centro-africana: “macumbas” e léxico bantu

Antes da consolidação de categorias modernas como “Umbanda” e “Kimbanda”, diversas práticas afro-brasileiras urbanas e rurais eram descritas (por agentes externos e, em alguns contextos, internamente) por termos amplos como “macumba(s)”, além de nomes de cultos/linhas regionais (por exemplo, Calundu e outros complexos locais). Estudos historiográficos e etnolinguísticos indicam que a presença centro-africana (bantu, especialmente Congo/Angola) forneceu parte importante do léxico ritual — inclusive termos e categorias ligados a “morto” e a práticas de incorporação/feitiçaria que mais tarde seriam reconfiguradas em sistemas de terreiro.[3][1]

No Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX, a historiografia registra a centralidade de práticas conhecidas como “macumbas” e de figuras de grande notoriedade pública, como o feiticeiro Juca Rosa, frequentemente referido em estudos como Pai Quibombo (ou variantes do epíteto), associado à cena urbana afro-religiosa do período.[4][5]

2) Cabula e continuidade bantu-kikongo

A Cabula — documentada sobretudo no Espírito Santo (com referências também na Bahia) em descrições históricas do final do século XIX e início do século XX — é frequentemente discutida como um complexo ritual de matriz banto-angolana, com forte ênfase em incorporação, segredo iniciático e organização litúrgica comunitária. Em análises comparativas, a Cabula aparece como um elo importante para compreender a persistência e a transformação de repertórios centro-africanos no Brasil, especialmente quando observada em continuidade com formas posteriores e urbanizadas identificadas, no Rio de Janeiro, como “macumba”.[6][7]

O estudo de Valdeli Carvalho da Costa, apoiado nas anotações pastorais e levantamentos feitos por Dom João Batista Corrêa Nery (bispo de Vitória), descreve a presença de grupos cabulistas na região de São Mateus (norte do Espírito Santo), destacando a existência de comunidades com milhares de adeptos e uma disciplina ritual marcada pelo “segredo absoluto” e pela estruturação de reuniões noturnas, muitas vezes realizadas em mata fechada, em torno de um espaço ritual (camucite) organizado com mesa, velas e pequenos objetos litúrgicos.[6][8]

Diversos elementos linguísticos e simbólicos descritos para a Cabula são compatíveis com campos bantu-kikongo, seja pela terminologia (prefixos classificatórios e vocabulário ritual), seja por equivalências materiais posteriormente reconhecíveis em tradições afro-brasileiras. Um exemplo recorrente é a presença de emba (pó branco de tabatinga) aplicada em pontos do corpo do neófito durante a iniciação, com função de consagração e marcação ritual; na literatura comparativa, esse elemento é frequentemente aproximado do campo semântico e do uso afro-brasileiro de mpemba/pemba como substância branca de assentamento, firma e grafia ritual.[6][8]

No plano organizacional, a Cabula registra categorias internas e distinções iniciáticas (cafioto para adeptos; cambas como companheiros; camanás como iniciados; caialos como profanos) e emprega designações sacerdotais como embanda, termo que, no quadro histórico traçado por Costa, reaparece em descrições posteriores de terreiros de macumba como nome do dirigente do culto, associado a funções de condução litúrgica, doutrinação ritual e gerenciamento do espaço de incorporação.[6][9][10]

O artigo também enfatiza um conjunto de paralelos rituais entre Cabula e macumba: uso de vestes brancas e pés descalços; realização de “trabalhos” em mata; oração inicial e sequência de cânticos (nimbus) ritmados por palmas; entrada em transe do dirigente e dos iniciados; atuação de auxiliares (cambone) no serviço litúrgico; e a presença de objetos e gestos que, em formas posteriores, continuam a aparecer como recursos operativos (velas, defumações, cachimbo, sinais riscados como autoconfirmação da entidade, além de práticas de purificação e verificação de fé).[6][11]

Entre os marcadores mais relevantes de continuidade bantu, o texto destaca o termo Carunga como corruptela de Kalunga (mar/oceano em kimbundu), empregado como referência litúrgica no rito cabulístico; na leitura comparativa, essa categoria permanece em usos afro-brasileiros posteriores como distinção simbólica entre “kalunga grande” (mar) e “kalunga pequena” (cemitério), evidenciando uma persistência de cosmogramas e mapas rituais centro-africanos sob adaptações locais.[6][8]

No nível da dinâmica de incorporação, Costa registra que, na Cabula, os espíritos incorporados eram chamados de tatá (pai, em kimbundu), compreendidos como guias familiares protetores que orientavam necessidades temporais e espirituais. O mesmo vocabulário (com deslocamentos semânticos ao longo do século XX) persiste em tradições afro-brasileiras, onde “tatá” passa a funcionar, em muitos contextos, como título sacerdotal ou denominação honorífica ligada a autoridade ritual — um exemplo de continuidade formal associada a reinterpretações históricas da memória ancestral em ambientes urbanos e pós-escravidão.[6]

A relevância da Cabula, não se reduz ao registro de um culto regional “extinto”, mas opera como fonte histórica para identificar as bases banto-angolanas que alimentaram formas posteriores, especialmente a macumba carioca e, por desdobramento, a Umbanda e a Kimbanda em suas camadas mais antigas. Por isso, o estudo comparativo da Cabula é frequentemente apontado como estratégico para compreender a genealogia de práticas de incorporação, hierarquia, grafia ritual e tecnologias de purificação/assentamento que, sob diferentes nomes, continuam a circular no universo afro-brasileiro.[6][10]

3) A entrada/fortalecimento yorùbá-nagô e o encontro com Èṣù

Com a intensificação de aportes yorùbá/nagô em determinados contextos (especialmente no século XIX), a noção de Èṣù enquanto Òrìṣà e princípio cosmológico passa a circular com mais força, encontrando (e, em vários lugares, cruzando) fundamentos bantu já existentes. Esse encontro não “substitui” o repertório anterior: tende a produzir equivalências funcionais, traduções rituais e novas leituras, em que “Exu” passa a nomear, em muitos terreiros, tanto a camada de Òrìṣà (Èṣù) quanto (mais tarde) camadas de entidades operativas (Exus/Pombagiras) em sistemas afro-brasileiros.[2][1]

4) Século XX: Umbanda, disputa de sentidos e “sistematizações”

No século XX, especialmente em vertentes urbanas, a figura de Exu passa por reinterpretações e disputas internas (moralização vs. função liminar/guardadora). Parte da literatura umbandista do período apresenta leituras negativas e/ou disciplinadoras, em contraste com leituras posteriores de legitimação e reafricanização (com ênfases variáveis por escola e época).[1]

Nesse mesmo ciclo, autores como Aluízio Fontenelle tornam-se marcos da literatura que descreve e classifica Exus (por vezes de modo controverso), influenciando como a “Kimbanda” seria entendida e sistematizada em recortes posteriores — inclusive em diálogo com demonologias europeias e categorias “magia branca/magia negra”.[12]

5) Pombagira e circulação de nomes

A categoria Pombagira consolida-se como polo lunar/feminino em muitos sistemas afro-brasileiros. A literatura acadêmica discute performances de gênero, circulação de nomes e transformações na cultura ritual brasileira, com diferentes hipóteses (incluindo debates etimológicos e históricos).[13][14]

Em síntese: “Exu”, no Brasil, torna-se um termo-guarda-chuva que pode carregar (i) a camada yorùbá de Èṣù enquanto Òrìṣà e (ii) camadas afro-brasileiras de entidades operativas (Exus/Pombagiras), frequentemente reinterpretadas sobre base centro-africana/bantu (incluindo categorias de morto operativo como Nkulu) — com sistematizações, disputas e reordenações sobretudo no século XX.[1][2]

Exu na Kimbanda

Na Kimbanda, Exu é a entidade axial do sistema. Atua como guardião da Encruzilhada, mediador de pactos e operador de decisões, sustentando a dinâmica entre vivos e mortos.

Pontos riscados

Todo Exu possui Ponto riscado, entendido como sua assinatura simbólica e ritual. Os pontos riscados identificam linha, falange e fundamento, e funcionam como marca de presença e chave operativa. A descrição técnica e os usos rituais dos pontos riscados são tratados no verbete específico.

Pontos cabalísticos

Em alguns sistemas afro-ocultistas contemporâneos, certos Exus são associados a pontos cabalísticos, isto é, esquemas simbólicos que integram correspondências, eixos e mapas ontológicos. Essa leitura é comparativa e não substitui fundamentos tradicionais de terreiro.

Guias de Exu e adereços

Exus podem ser identificados por guias (colares rituais) e por adereços simbólicos, como capa, chapéu, bengala, tridente ou punhal. Esses elementos funcionam como marcadores de função e linha, variando conforme a casa e a tradição.

Exu Tutelar

Na Kimbanda, cada Nganga (ou iniciado) possui um Exu Tutelar ou uma Pombagira Tutelar. Essa entidade constitui a tutela espiritual pessoal do adepto, sendo responsável por sua guarda, orientação, comando operativo e mediação direta com o mundo espiritual.[15]

O Exu ou a Pombagira Tutelar atua como um daemon pessoal, vinculado de forma íntima e permanente à identidade iniciática do praticante. Não se trata de um espírito genérico, ocasional ou circunstancial, mas de uma inteligência liminar individualizada, cuja função é acompanhar o Nganga ao longo de toda a sua vida ritual, regulando o acesso às forças espirituais com as quais ele opera.

Em perspectiva comparativa, o Exu Tutelar pode ser funcionalmente aproximado:

  • ao anjo da guarda em sistemas devocionais cristãos;
  • ao Sagrado Anjo Guardião (Holy Guardian Angel) da tradição thelêmica;
  • ao conceito grego de paredros (παρέδρος), o espírito assistente pessoal do magista na Antiguidade.

Essas aproximações são funcionais e simbólicas, não implicando equivalência ontológica literal entre sistemas distintos. Na ontologia da Kimbanda, o Exu ou a Pombagira Tutelar mantém sua natureza própria enquanto entidade liminar e operativa, frequentemente compreendida como um Poderoso Morto ou como uma força espiritual estabilizada e reconhecida por fundamento iniciático.

Exu Tutelar na ontologia da O∴S∴

Na ontologia pública da Ordo Strigosatanis (O∴S∴), o Exu Tutelar ocupa uma posição estrutural e iniciática fundamental. Sua função não se limita à guarda ou orientação geral do adepto, mas integra uma cadeia hierárquica de mediação espiritual que regula o trânsito do Nganga entre os domínios solares, lunares e ctônicos da existência.

Nesse sistema, o Exu Tutelar é o primeiro agente de abertura. Ele atua como guardião do limiar entre o iniciado e as inteligências superiores que regem sua estrutura espiritual.

De forma esquemática, a função do Exu Tutelar na O∴S∴ pode ser descrita da seguinte maneira:

  • O Exu Tutelar abre o caminho e estabelece a mediação inicial do Nganga com seu Daemon Tutelar, responsável pelas Sefirás solares da Árvore da Vida;
  • O Daemon Tutelar, por sua vez, possibilita o acesso consciente e regulado à Pombagira Tutelar, que opera como contraparte lunar e chave de descida;
  • A Pombagira Tutelar abre o caminho para a Klépoth (Árvore da Morte), permitindo o trânsito seguro pelas zonas lunares e adversariais;
  • A partir desse acesso, o Nganga pode estabelecer relação com seu Emissário Tutelar, inteligência responsável por mediar o contato com as Qlipás e com os Arquidaemons da Klépoth.

Nesse encadeamento, o Exu Tutelar não é o Daemon, nem o Emissário, nem o Arquidaemon. Ele é o operador liminar primário, aquele que abre o caminho, sustenta o eixo e regula o trânsito iniciático, impedindo acessos desordenados, colapsos ontológicos ou rupturas prematuras.

Na O∴S∴, portanto, o Exu Tutelar é compreendido como a primeira chave viva da estrutura iniciática do Nganga, sem a qual não há acesso legítimo às esferas superiores (solares) nem às profundezas adversariais (lunares e klipóticas).

Cabalá Crioula

Em vertentes da Kimbanda, o termo Cabalá Crioula designa o conjunto geral de métodos oraculares, chaves simbólicas, sistemas de leitura e tecnologias divinatórias empregados pelo Nganga para estabelecer comunicação, interpretação e decisão ritual a partir das respostas de Exu e Pombagira.

A Cabalá Crioula não se restringe a um único oráculo, mas constitui um campo oracular afro-diaspórico próprio, formado por sistemas tradicionais, tecnologias de linhagem e desenvolvimentos iniciáticos contemporâneos. Seu objetivo é orientar o praticante e os consulentes em questões do cotidiano, decisões práticas, diagnósticos espirituais, movimentos de força, cobranças, aberturas, bloqueios e processos iniciáticos.

Dentro da Cabalá Crioula, diferentes oráculos podem ser utilizados conforme o fundamento da casa, o nível iniciático do operador e a natureza da questão consultada.

Kawri de Exu (Jogo de Búzios)

O Kawri de Exu refere-se ao oráculo de búzios operado para Exu e Pombagira, entendido como um sistema tradicional de adivinhação afro-brasileiro, amplamente empregado na Kimbanda para leitura de situações concretas e movimentos espirituais.[16]

O oráculo pode utilizar:

  • búzios de cor branca, tradicionalmente chamados de kawri/kauri;
  • búzios de cor negra, que em algumas casas recebem a designação ritual de erin.

A escolha do tipo de búzio, bem como o número empregado, varia conforme a linhagem, o fundamento e a tecnologia ritual utilizada.[16]

A palavra kawri (kauri/cowrie) possui etimologia associada ao uso ancestral dos búzios como moedas, instrumentos de troca e ferramentas divinatórias em culturas africanas e afro-diaspóricas. Nesse sentido, o Kawri de Exu expressa uma lógica oracular baseada em troca, resposta, preço, retorno e circulação de força espiritual.[16]

Kawri ou Erin de Exu (jogos de 4 e 7 búzios)

Em muitas casas, utilizam-se modalidades simplificadas do oráculo, conhecidas como jogos de 4 búzios e jogos de 7 búzios. Esses jogos são empregados principalmente para:

  • leituras rápidas;
  • confirmação de movimento;
  • verificação de presença ou condição espiritual;
  • orientação imediata.

São amplamente associados a contextos da Kimbanda Malê e da Kimbanda Nagô, embora suas formas de leitura e interpretação variem de casa para casa.[16]

Jogo de 12 búzios de Exu (Tata Negão)

Há registros contemporâneos de sistematizações do oráculo em 12 búzios, atribuídas a Tata Negão, estruturadas para ampliar a resolução da leitura e organizar respostas por camadas operativas.

A Exupedia registra esse sistema como uma tecnologia oracular de linhagem, cuja aplicação, regras internas e chaves interpretativas dependem diretamente do fundamento em que foi transmitido e praticado.[16]

Mesa Imperial

A Mesa Imperial é um jogo de alta complexidade, empregado por Tatas e Mametos para a divinação de questões densas e de caráter iniciático.

É utilizada, entre outras finalidades, para:

  • diagnósticos rituais aprofundados;
  • investigação de fundamentos;
  • definição de eixos espirituais;
  • processos de reconhecimento e confirmação de Exu e Pombagira Tutelares.

Sua estrutura não é universal, variando conforme o sistema ritual em que opera.[16]

Baralho Fofoqueiro (Baralho Cigano)

O Baralho Fofoqueiro, também conhecido como Baralho Cigano, é utilizado em determinadas vertentes da Kimbanda Nagô como oráculo de Exu e Pombagira.

Nesse contexto, o baralho é reinterpretado segundo a lógica da Cabalá Crioula, sendo empregado para:

  • leitura de relações sociais;
  • conflitos interpessoais;
  • intrigas, influências externas e movimentos ocultos;
  • diagnósticos práticos do cotidiano.

Seu uso não segue necessariamente a tradição cigana europeia clássica, mas uma leitura adaptada e cruzada, orientada pelas entidades e pelo fundamento da casa.

Tarot de Kimbanda

O Tarot de Kimbanda é um oráculo sagrado e divinatório desenvolvido no âmbito da Ordo Strigosatanis (O∴S∴), integrando fundamentos da Kimbanda, da ontologia dos Poderosos Mortos, da Árvore da Vida e da Morte das Encruzilhadas e de sistemas mágicos adversariais.

O Tarot de Kimbanda é utilizado:

  • tanto para uso iniciático interno da O∴S∴;
  • quanto para uso oracular externo, em leituras públicas e privadas.

Sua estrutura compreende:

  • Arcanos Maiores, ligados a princípios ontológicos e caminhos iniciáticos;
  • Arcanos Menores, associados a Exus e Pombagiras solares e lunares;
  • sistemas simbólicos próprios, com chaves operativas específicas.

Diferentemente de tarots europeus, o Tarot de Kimbanda não é apenas simbólico ou psicológico, mas concebido como um instrumento operatório, destinado à leitura de destino, decisão ritual, trânsito entre Sefirá e Klipá e orientação iniciática.

Ngombo — Oráculo de Ossículos Divinatórios

O Ngombo é um oráculo de ossículos divinatórios de altíssimo grau técnico e iniciático, oriundo de matrizes bantu-centro-africanas e tradicionalmente operado por Muloji (feiticeiros bantu).

Trata-se de um instrumento oracular extremamente avançado, utilizado para leitura profunda de destino, causalidade espiritual, estruturas ocultas de conflito, vínculos com mortos e desdobramentos iniciáticos. Diferentemente de oráculos voltados ao cotidiano imediato, o Ngombo opera sobre camadas estruturais da existência, incluindo heranças espirituais, pactos antigos, cargas ancestrais e decisões de longo alcance.

No fundamento tradicional, o Ngombo é regido por um Poderoso Morto específico: Kalamba Nkuku wa Lunga, autoridade necromântica soberana associada ao governo dos ossos, da palavra oracular e da revelação da verdade oculta. Sua regência confere ao Ngombo caráter de oráculo de sentença, no qual a resposta não é meramente aconselhadora, mas diagnóstica e determinante.

Na Kimbanda, o Ngombo é preservado sobretudo em vertentes de caráter mais fechado e ctônico, com destaque para a Kimbanda Matumbu, onde é empregado para:

  • divinação necromântica avançada;
  • investigação de fundamentos espirituais ocultos;
  • leitura de mortos, pactos e vínculos ancestrais;
  • decisões rituais irreversíveis.

Na ontologia pública da Ordo Strigosatanis (O∴S∴), o Ngombo é integrado como um oráculo de alta iniciação, reservado à divinação avançada e ao trato direto com os Poderosos Mortos e estruturas profundas da Klépoth.

Nesse contexto, o Ngombo não substitui outros sistemas oraculares da Cabalá Crioula, mas ocupa o seu nível mais profundo, sendo utilizado apenas quando leituras convencionais se mostram insuficientes para revelar a verdadeira raiz da questão.

Reinos de Exu

Em diversas vertentes da Kimbanda — especialmente nas de caráter mais sistematizado e operativo — Exus e Pombagiras são organizados em Reinos.

Os Reinos representam campos ontológicos, territoriais e funcionais de manifestação espiritual, definindo ambientes simbólicos, tipos de força e modos de atuação ritual. Sua nomenclatura e estrutura variam conforme a vertente (Kimbanda, Umbanda, Jurema ou sistemas próprios), não existindo uma lista universal.

Entre os Reinos mais recorrentes em determinadas tradições estão, por exemplo:

Nota: Os Reinos não substituem a identidade individual do Exu nem seu nível ontológico (como Exu Nkulu). Funcionam como mapas classificatórios e operativos dentro de sistemas rituais específicos.

Para uma exposição completa, ver o verbete principal: Reinos de Exu e Pombagira

Falanges

Dentro dos Reinos ou sistemas classificatórios adotados por cada vertente, as falanges organizam Exus e Pombagiras por epítetos, funções rituais e fundamentos operativos.

Uma falange não define o nível ontológico da entidade, mas seu modo de atuação, atribuições específicas e campo simbólico dentro de uma tradição ritual. Exemplos de epítetos recorrentes incluem Tranca-Ruas, Marabô, Caveira, Veludo, entre muitos outros, variando conforme a linhagem e o sistema adotado.

A estrutura, o número e os nomes das falanges não são universais e dependem diretamente da vertente (Kimbanda, Umbanda, Jurema ou sistemas próprios).

Para uma exposição detalhada, ver: Falanges de Exu e Pombagira

Exu castiço

O termo Exu castiço refere-se originalmente à ideia de casta ritual (isto é, falange), indicando Exus pertencentes a uma falange reconhecida, transmitida por linhagem ritual contínua.

Nesse sentido, “castiço” designa a regularidade de casta: a entidade possui nome fixo, ponto riscado, fundamento e modo de operação estável, sendo reconhecida e reiterada no tempo por uma tradição específica.

Ao longo do século XX, especialmente em contextos urbanos e em certos terreiros, o termo sofreu corruptela fonética e semântica, passando a ser grafado e reinterpretado como “catiço”. Esse neologismo não possui base etimológica tradicional e resultou, em muitos casos, na leitura equivocada de que “Exu catiço” significaria um Exu “menor”, “misturado” ou “não legítimo”.

Na perspectiva adotada pela Exupedia, “castiço” não qualifica valor moral, pureza ou poder, mas exclusivamente pertença a uma casta (falange) ritual definida. Da mesma forma, o uso do termo “catiço” é compreendido como uma variação popular posterior, não como uma categoria ontológica formal.

Nota editorial: Ser “castiço” não implica superioridade espiritual, mas estabilidade ritual e continuidade de casta dentro de um sistema específico.

Panorama por tradições

A figura de Exu assume funções, estatutos ontológicos e modos de culto distintos conforme a tradição religiosa ou sistema ritual em que se manifesta. A seguir, apresenta-se um panorama comparativo das principais matrizes afro-brasileiras e afro-diaspóricas em que Exu é cultuado, operado ou integrado por cruzamento ritual.

Umbanda

Na Umbanda, Exu atua como entidade de comunicação, guarda e ordenação espiritual. Historicamente, foi por vezes moralizado ou disciplinado, sendo apresentado como “guardião da Lei” ou “espírito em evolução”, em contraste com leituras mais antigas e operativas.

Em muitas casas, Exu trabalha em horários, dias ou giras específicas, frequentemente após as linhas chamadas “de direita”, exercendo funções de limpeza, proteção e mediação entre planos.

Umbanda Omolokô

A Umbanda Omolokô ocupa posição de transição entre Umbanda e Kimbanda. Nela, Exu é reconhecido como entidade autônoma, e não meramente subordinada, preservando fundamentos afro-bantu e yorùbá.

Essa vertente foi central na reafirmação ritual de Exu ao longo do século XX, contribuindo decisivamente para a consolidação da Kimbanda moderna e para a ruptura com leituras excessivamente moralizadas.

Jurema Sagrada

Na Jurema Sagrada, Exu aparece de forma indireta ou sincrética, frequentemente associado a mestres, encantados e forças de encruzilhada. Seu papel está ligado à abertura de caminhos, proteção e trânsito entre mundos, ainda que nem sempre seja nomeado explicitamente como “Exu”.

Em casas juremeiras cruzadas, Exus e Pombagiras podem atuar conjuntamente com Mestres, Caboclos e Encantados, preservando funções liminares e de fronteira espiritual.

Catimbó

No Catimbó — especialmente em suas formas tradicionais nordestinas — não há, em sua estrutura clássica, uma linha formal de Exus nos moldes da Umbanda ou da Kimbanda. Entretanto, muitos sistemas catimbozeiros modernos incorporaram Exus e Pombagiras por influência da Umbanda e da Kimbanda, sem que isso represente o Catimbó original em sua forma mais antiga.

Encantaria

Na Encantaria — presente sobretudo na Amazônia e no Norte do Brasil — o foco ritual recai sobre encantados (entidades que não passaram pela morte comum ou que habitam reinos encantados). Contudo, em sistemas cruzados Exu pode aparecer como força de limiar; atuar como guardião de passagem entre reinos ou operar em giras paralelas, sobretudo em casas influenciadas pela Umbanda e pela Kimbanda. Essas manifestações refletem cruzamentos históricos e urbanos, e não a estrutura clássica da Encantaria.

Batuque

No Batuque — especialmente no contexto do Rio Grande do Sul — Exu ocupa uma posição mais próxima ao universo yorùbá, sendo frequentemente associado a Bará, com funções de mensageiro, guardião e princípio de movimento. Embora o Batuque tradicional não possua uma “linha de Exus” nos moldes da Umbanda ou da Kimbanda, práticas cruzadas e contextos urbanos costumam incorporar giras ou trabalhos específicos com Exu.

Tambor de Mina

No Tambor de Mina, especialmente no Maranhão, o sistema religioso organiza-se em torno dos Voduns e das famílias espirituais (como os Jeje, Nagô e Caboclos). Assim como em outros sistemas, a presença de Exu no Tambor de Mina não constitui regra doutrinária, mas resultado de cruzamentos regionais e históricos.

Candomblé Castiço (com Gira de Exu)

No Candomblé castiço — especialmente em casas de matriz angola ou nagô-angola — Exu é cultuado primordialmente como Òrìṣà (Èṣù), princípio cosmológico e mensageiro divino.

Entretanto, em diversos contextos históricos e regionais, desenvolveram-se giras de Exu paralelas ao culto ortodoxo, sobretudo em ambientes urbanos, resultando no chamado Candomblé “catiço” ou “cruzado”.

Nesses casos, coexistem:

  • o culto formal a Èṣù enquanto Òrìṣà;
  • e a operação ritual com Exus enquanto entidades espirituais.

Essa convivência reflete processos históricos de adaptação ritual e sincretismo interno, não constituindo uma norma universal do Candomblé tradicional.

Santo Daime (linhas cruzadas)

No Santo Daime, especialmente em contextos urbanos e em vertentes não ortodoxas, observa-se a incorporação de giras de Exu ou trabalhos espirituais de caráter liminar, geralmente por influência direta da Umbanda, da Umbanda Omolokô ou de sistemas cruzados.

Embora o Daime tradicional não possua Exu como entidade central de culto, em comunidades daimistas cruzadas podem ocorrer:

  • trabalhos de limpeza e guarda espiritual;
  • giras paralelas ou externas à liturgia do hinário;
  • atuação conjunta de Exus, Pombagiras, Caboclos e Pretos-Velhos.

Essas práticas não representam o núcleo doutrinário do Santo Daime, mas refletem processos históricos de cruzamento religioso.

Kimbanda

Na Kimbanda, Exu é compreendido como entidade operativa central, exercendo funções de comando, abertura, mediação, pacto e execução ritual. Em muitas vertentes, Exu é classificado ontologicamente como Nkulu (Poderoso Morto), isto é, um morto soberano que rompeu o ciclo das reencarnações físicas (kuzinga kabutuka).

A Kimbanda não constitui um sistema único ou homogêneo, mas um conjunto de múltiplas vertentes, estruturadas segundo matrizes históricas, cosmológicas e operativas distintas, variando conforme a região, a linhagem e o sistema ritual adotado.

Kimbanda Africana (Caboclos Kimbandeiros)

Vertentes fortemente enraizadas em fundamentos bantu-centro-africanos (Congo–Angola), com ênfase na ancestralidade, na Kalunga e nos mortos operativos.

Também conhecida como Kimbanda dos Caboclos Kimbandeiros, destaca entidades ligadas à mata, à caça, à força da natureza e ao domínio ritual dos caminhos selvagens.

Kimbanda Mineira / Kimbanda do Congado

Designação regional para processos de intersecção entre práticas kimbandeiras e o Congado, incorporando musicalidade ritual, ancestralidade bantu, figuras de realeza simbólica e trabalhos com Exus e Pombagiras.

Nota editorial: muitas alegações de “africanização pura” carecem de base histórica uniforme; trata-se sobretudo de recomposição e cruzamento regional de tradições afro-brasileiras já miscigenadas.

Kimbanda Nagô

A Kimbanda Nagô é uma das vertentes mais difundidas, consolidadas e historicamente influentes da Kimbanda no Brasil. Diversos registros contemporâneos, aliados à tradição oral, indicam que foi a forma de Kimbanda mais expandida e conhecida em todo o território nacional ao longo do século XX, exercendo forte impacto na organização ritual, na nomenclatura das entidades e na padronização de práticas em inúmeras casas.[17]

Embora não seja possível afirmar de maneira definitiva que tenha sido a vertente primordial da Kimbanda, a Kimbanda Nagô ocupou papel central na estruturação pública e urbana do culto a Exu e Pombagira, tornando-se referência para sistemas posteriores e para diversas formas de Kimbanda cruzada. Sua força de difusão está ligada à capacidade de organizar o culto em moldes compreensíveis, replicáveis e transmissíveis, sem romper com o fundamento do morto operativo.

Historicamente, a Kimbanda Nagô caracteriza-se por um alto grau de sincretismo material e imagético, especialmente perceptível no uso de imagens de gesso em assentamentos e altares. Esse sincretismo não constitui um desvio moderno, mas remonta aos primeiros contextos de repressão religiosa e adaptação urbana, funcionando como estratégia de preservação ritual. Ao longo do tempo, tais elementos tornaram-se marcas identitárias de muitas casas nagôs, ainda que vertentes contemporâneas adotem leituras críticas ou seletivas sobre seu uso.

A partir de meados do século XX, sobretudo em grandes centros urbanos, observa-se que parte dos feiticeiros ligados à Kimbanda Nagô passou a realizar cruzamentos conscientes com a Kimbanda Malê, incorporando elementos da cabala goética e da demonologia europeia. Esses cruzamentos não implicaram abandono do eixo nagô, mas produziram sistemas híbridos nos quais Exus e Pombagiras permanecem compreendidos como mortos soberanos, enquanto sigilos, nomes e hierarquias demonológicas são empregados como chaves simbólicas e operativas.

Entre os nomes tradicionalmente associados a esse movimento destaca-se Tata Augustin (São Paulo), frequentemente citado como um dos principais precursores da mesclagem entre a Kimbanda Nagô e a cabala goética oriunda da Kimbanda Malê, tendo como chefia espiritual Exu Gererê.[17]

Do ponto de vista ontológico, a Kimbanda Nagô preserva Exu como entidade operativa central, vinculada ao comando ritual, à abertura de caminhos, à mediação entre vivos e mortos e à execução de decisões mágicas. Sua especificidade não reside em alterar a natureza de Exu, mas em enfatizar organização, hierarquia, noção de lei e estrutura ritual estável, características que contribuíram decisivamente para sua ampla difusão e permanência histórica.

Nota editorial: A Kimbanda Nagô não constitui um sistema único ou homogêneo. Suas expressões variam conforme região, linhagem e grau de cruzamento com outras tradições. A descrição acima reflete características amplamente documentadas em literatura contemporânea e tradição oral registrada, não regras universais aplicáveis a todas as casas.

Kimbanda Malê (Malei)

É uma vertente profundamente ctônica, hierárquica e iniciática, marcada por influências afro-atlânticas islâmicas, pela centralidade da escrita mágica e por sistemas grimoriais comparáveis, em termos funcionais, ao Grimorium Verum. Trata-se de uma tradição que enfatiza o pacto consciente, a soberania do morto e a administração espiritual rigorosa dos reinos de Exu.[17]

Segundo registros contemporâneos e tradição oral sistematizada, a Linha Malê é composta por sete falanges principais, cada uma com seu chefe e respectivos subordinados, formando uma estrutura que seus adeptos compreendem como um alto conselho ctônico. Nesse entendimento, a Kimbanda Malê opera como uma alta cúpula administrativa que rege, organiza e governa os domínios da Kimbanda, especialmente aqueles ligados à encruzilhada, à morte soberana e à lei espiritual.[17]

Historicamente, a Kimbanda Malê é compreendida como derivada daquilo que ficou conhecido como Kimbanda das Encruzilhadas, tendo como regente maior o Exu Rei (Sanctum Regnum). Essa matriz original consolidou a ideia de Exu como soberano absoluto do limiar, princípio de governo e autoridade máxima sobre pactos, cobranças e decisões irreversíveis.

A linhagem da Kimbanda Malê — enquanto tradição organizada — foi trazida e difundida por Antônio Freitas, natural da Paraíba e oriundo de Pernambuco, seguindo uma cadeia iniciática que inclui Dorcides Lopes Lencina (conhecido como Dorça de Oxum), Renato Sonir Soares (São Jorge do Espírito Santo), Carlos Rodrigo Pereira Chaves (Palhoça de Obaluayê) e Muloji (vinculado à Kimbanda Matumbu). Ao longo de sua transmissão, a Kimbanda Malê sofreu variações e adaptações em sua fundamentação ritual; contudo, a base crua e mais preservada permaneceu registrada na cidade de Santa Maria/RS, especialmente na casa do finado Dorcides de Oxum.[17]

Nessa casa, Dorcides de Oxum recebia uma entidade conhecida como Asmodeus, identificada com o arquétipo persa Aēšma Daeva. Dentro dessa vertente, a iniciação assume caráter radicalmente ctônico: a chamada “escritura da alma” deve ser lavrada com o próprio sangue do iniciado, sendo necessário ferir uma região do corpo como ato final de confirmação do pacto com o demônio pessoal regente do iniciado, denominado Katula. Esse procedimento simboliza a entrega consciente da soberania espiritual e o selamento irreversível do vínculo iniciático.

As raízes históricas mais profundas da Kimbanda Malê conectam-se ao culto aos mortos dos Malês, cuja origem remonta à cidade de Penedo, em Alagoas. Esse culto foi organizado por Preto Manoel, nagô liberto da família Bittencourt, responsável por estruturar práticas rituais voltadas à ancestralidade malê e à feitiçaria escrita. Os Malês, conforme registrado por cronistas e estudiosos, destacavam-se por sua alta taxa de alfabetização em árabe e por sua notável resiliência cultural.[18]

Os Malês portavam tradicionalmente um patuá (ou bolsa ritual) pendente ao pescoço, contendo orações e inscrições conhecidas como Signo de Salomão (Sulaymān em árabe). Essa prática evidencia a centralidade da escrita sagrada e da magia textual em sua cosmologia ritual.

Manuel Querino registra o temor que a feitiçaria malê inspirava, afirmando que “o feitiço malê é inteiramente diverso dos demais africanos”. Segundo sua descrição, os Malês escreviam, em tábua preta, fórmulas e sinais cabalísticos contra a pessoa visada; em seguida, apagavam esses sinais com água, e o líquido resultante era lançado no caminho por onde a vítima deveria passar, consumando o ato mágico.[18]

Querino também sublinha o papel central dos Malês em revoltas e levantes urbanos, sendo o mais célebre o Levante dos Malês de 1835, na Bahia, episódio que marcou profundamente a história da resistência africana islâmica no Brasil e consolidou a imagem dos Malês como detentores de uma feitiçaria temida, disciplinada e politicamente organizada.

Nesse contexto histórico, ritual e simbólico, a Kimbanda Malê preserva e reelabora elementos da feitiçaria escrita, da necromancia soberana e da administração espiritual rigorosa, constituindo uma das vertentes mais densas, adversariais e estruturalmente hierarquizadas da Kimbanda.

Kimbanda Mossorubi (Mossorubi / “Mussurumim”)

Em algumas sistematizações regionais — sobretudo em contextos do Sul do Brasil e de práticas chamadas “Linha Cruzada” — aparecem listas de “linhas” (ou reinos) de Exu/Pombagira nas quais figura a Linha de Mossorubi. Numa dessas sistematizações, a Mossorubi é apresentada como uma linha “chefiada por Kaminaloá” e descrita em termos etnográficos antigos como ligada a “selvagens africanos (zulus e cafres)”.[19]

Em ambientes de Quimbanda sulista/Linha Cruzada, é comum coexistirem, no mesmo horizonte ritual, trabalhos de Exu/Pombagira com formas de culto e reverência a Òrìṣà (por influência direta do Batuque e de cruzamentos históricos regionais). Assim, a presença de “linhas” como Mossorubi em listas kimbandistas pode ocorrer sem excluir a reverência a Òrìṣà em outras camadas do mesmo complexo religioso regional.[19]

Kimbanda dos Caveiras

Enfatiza Exus ligados à morte, ao cemitério e à Kalunga.

Kimbanda dos Kiumbas

Trabalha deliberadamente com mortos instáveis (Kiumbas), exigindo técnicas rigorosas de comando.

Kimbanda das Almas

Voltada ao trato com almas errantes e ordenação do pós-morte.

Kimbanda Luciferiana

Articula Exu com demonologia e sistemas adversariais europeus.

Kimbanda Matumbu

Associada a linhagens fechadas, com forte ênfase em necromancia.

Kimbanda Cruzada

Cruzamentos conscientes com outras tradições mágicas.

Kimbanda da O∴S∴ (Alta Kimbanda)

Na ontologia pública da O∴S∴, Exu é definido como um Poderoso Morto (Nkulu), guardião do limiar entre uma Sefirá e sua contraface (Klipá).

Exu atua como agente de abertura e operador de trânsito iniciático, mediando o acesso do iniciado ao Daemon regente. Exu abre a Klipá, mas não é o Daemon.

Comparações interculturais

Exu e entidades liminares em outros sistemas religiosos

Diversas tradições religiosas e mágicas ao redor do mundo apresentam entidades de limiar, mensageiros, mediadores ou forças de trânsito entre mundos, cuja função estrutural é comparável à de Exu, ainda que pertençam a cosmologias, ontologias e sistemas rituais distintos. As aproximações abaixo são funcionais e comparativas, não identidades diretas.

Vodou Haitiano

No Vodou Haitiano, os Loas (ou Lwa) exercem função intermediária entre Bondye (o princípio supremo) e o mundo humano. Assim como Exu, os Loas:

  • governam domínios específicos da existência;
  • atuam como mediadores entre planos;
  • exigem ritual, assentamento e relação pessoal.

Destaca-se a Família Gede, composta por espíritos ligados à morte, sexualidade, ruptura, ironia e limiar entre vida e pós-vida. Os Gede apresentam paralelos funcionais claros com Exus e Pombagiras, especialmente no trato com a morte, o riso ritual, a obscenidade sagrada e a soberania sobre o cemitério.

Apesar das semelhanças operativas, os Loas não são “Exus africanos”, mas entidades próprias de um sistema voduístico distinto, com lógica iniciática própria.

Palo Mayombe (Regla de Palo)

No Palo Mayombe, especialmente na vertente conhecida como “jardim de ossos”, o eixo central é a Nganga — caldeiro ritual que concentra mortos, forças da natureza e potências ctônicas.

Os Nkisi/Nfumbe (mortos assentados) operam como agentes ativos, guardiões e executores, desempenhando funções comparáveis às de Exu enquanto morto operativo e mediador entre mundos. A afinidade estrutural com a Kimbanda reside:

  • na centralidade do morto;
  • na necromancia operativa;
  • na soberania ritual sobre forças perigosas.

Santería (Regla de Ocha)

Na Santería, Exu encontra paralelo funcional principalmente em Elegguá (ou Eleguá), Òrìṣà mensageiro, senhor dos caminhos, portas e encruzilhadas.

Entretanto, Elegguá é ontologicamente um Òrìṣà e não um morto operativo. Sua função aproxima-se da de Exu Òrìṣà (Èṣù), e não do Exu Nkulu da Kimbanda, ainda que práticas populares e cruzadas por vezes confundam essas categorias.

Culto aos Kami (Xintoísmo)

No Xintoísmo, os Kami são espíritos ou princípios que habitam limiares naturais (portais, montanhas, rios, encruzilhadas). Alguns Kami exercem funções de:

  • guarda de passagem;
  • mediação entre mundos;
  • purificação e ordenação do caos.

Embora não haja necromancia ou pactuação nos moldes afro-diaspóricos, a função liminar e territorial dos Kami permite uma aproximação conceitual com Exu enquanto guardião de fronteiras.

Hinduísmo (Dragões, Yakṣas e Bhūtas)

No Hinduísmo, entidades como Yakṣas, Bhūtas e certos Nāgas ocupam posições liminares entre o mundo humano, o divino e o ctônico.

Os chamados “dragões” aparecem sobretudo no simbolismo tântrico e indo-budista como forças de poder primordial, associadas à energia, guarda de tesouros e limiares. Essas figuras não se equivalem diretamente a Exu, mas encaixam-se como potências de trânsito e guarda, sobretudo em contextos tântricos e não devocionais.

Bon-po e tradições tibetanas

Na tradição Bon e em correntes do budismo tibetano, existem espíritos territoriais, guardiões irados e entidades ctônicas que:

  • protegem portais e regiões;
  • exigem apaziguamento ritual;
  • atuam como forças perigosas quando não reconhecidas.

Figuras como os Dharmapalas irados podem ser comparadas funcionalmente a Exu enquanto guardião de limiar, embora inseridas em uma cosmologia radicalmente distinta e não necromântica.

Vodoun Gnóstico (O.T.O.A.)

No chamado Vodoun Gnóstico, sistema esotérico moderno associado à Ordo Templi Orientis Antiqua (O.T.O.A.), ocorre uma síntese deliberada entre o Vodou haitiano, o gnosticismo, a magia sexual, correntes adversariais e o ocultismo transatlântico.

Esse sistema foi amplamente desenvolvido por Michael Paul Bertiaux, que reinterpretou os Loas não como espíritos folclóricos ou estritamente religiosos, mas como inteligências ctônicas, cósmicas e transdimensionais, acessadas por meio de:

  • iniciações graduais;
  • sigilos e fórmulas mágicas;
  • magia sexual gnóstica;
  • operações astrais e oníricas.

Dentro desse contexto, forças e estruturas como La Couleuvre Noire (a Serpente Negra) e o Monastery of the Seven Rays (Monastério dos Sete Raios) funcionam como potências-raiz e matrizes iniciáticas, orientadas à abertura de estados de consciência, trânsito interdimensional e dissolução de formas fixas.

Funcionalmente, determinadas entidades e potências do Vodoun Gnóstico assumem papéis análogos aos de Exu enquanto:

  • operadores de abertura;
  • mediadores entre planos;
  • forças liminares e adversariais.

Demonização histórica

A associação de Exu ao “Diabo” cristão é resultado de leituras coloniais e não corresponde à sua função nas cosmologias africanas e afro-brasileiras.

Ver também

Notas

  1. 1,0 1,1 1,2 1,3 1,4 BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil. (Diversas edições).
  2. 2,0 2,1 2,2 PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás.
  3. MORAIS, Victor Hugo Oliveira de Paula. Um estudo sobre a macumba carioca. (Dissertação/Tese, USP).
  4. SAMPAIO, Gabriela dos Reis. A história do feiticeiro Juca Rosa: cultura e relações sociais no Rio de Janeiro do século XIX. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), 2000.
  5. DELGADO, David Dias. Cruzes e Encruzilhadas: Sincretismo e Hibridismos... (trabalho acadêmico em PDF; seção com referência a Juca Rosa como “Pai Quilombo” e às macumbas cariocas).
  6. 6,0 6,1 6,2 6,3 6,4 6,5 6,6 6,7 COSTA, Valdeli Carvalho da. Cabula e Macumba. Revista Síntese (Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte), 3º quadrimestre, 1987.
  7. ALMEIDA, Cristiano Farias de. A romanização do catolicismo no Espírito Santo... (trabalho acadêmico com seção sobre Cabula e referências documentais).
  8. 8,0 8,1 8,2 NERY, D. João Batista Corrêa. Lembranças da Visita Pastoral (caderno manuscrito). In: Cadernos de Etnografia e Folclore (3). Vitória: Comissão Espírito-santense de Folclore, 1963.
  9. RAMOS, Arthur. O Negro Brasileiro. São Paulo: Editora Nacional, 1951.
  10. 10,0 10,1 BASTIDE, Roger. Les Religions Africaines au Brésil. Paris: Presses Universitaires de France, 1968.
  11. BARROS, Jacy Rego. Senza e Macumba. Rio de Janeiro: Rodrigues & Cia, 1939.
  12. FONTENELLE, Aluízio. Exu. Rio de Janeiro: s/ed., década de 1950 (edições frequentemente referidas como 1951/1952 em bibliografias).
  13. BARROS, C. A. Iemanjá e Pomba-Gira: imagens do feminino na umbanda. Juiz de Fora, 2006 (Dissertação de Mestrado, UFJF).
  14. BARROS, M.; BAIRRÃO, J. F. “Performances de gênero na umbanda: a pombagira como interpretação afro-brasileira de ‘mulher’”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 62, 2015.
  15. LIGUORI, Fernando. DAEMONIUM – Vol. 2: A Quimbanda no Renascer da Magia. Clube de Autores. Disponível em: https://clubedeautores.com.br/livro/daemonium-vol
  16. 16,0 16,1 16,2 16,3 16,4 16,5 ARANTES, Marcello Silveira (Muloji). Defuntaria. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Ed. do Autor, 2024. ISBN 978-65-00-395598-3.
  17. 17,0 17,1 17,2 17,3 17,4 ARANTES, Marcello Silveira (Muloji). Matumbu. Santa Maria/RS: Edição do Autor, 2024. ISBN 978-65-01-45335-4.
  18. 18,0 18,1 QUERINO, Manuel. Costumes Africanos no Brasil. Salvador, 1851.
  19. 19,0 19,1 COSTA, E. B. Sacralização do tempo e do espaço na religião afro-brasileira. Dissertação (Mestrado) – PUC Goiás, 2008. (citando BRAGA, 1961, p. 96). Disponível em: (PDF) [oai_citation:0‡tede2.pucgoias.edu.br](https://tede2.pucgoias.edu.br/bitstream/tede/758/1/HULDA%20SILVA%20CEDRO%20DA%20COSTA.pdf?utm_source=chatgpt.com)

Última atualização: 2026